Vocação e chamado

Escrito por Fernando Corrêa Pinto
 
A vocação missionária e o chamado para pastorear são serviços especiais dados por Deus para a expansão do Seu Reino e para a salvação do mundo. Para que haja salvação é necessário que pessoas sejam enviadas (Romanos 10.14-15). É uma grande responsabilidade pregar o evangelho a outros povos e culturas. É um desafio grandioso a tarefa de plantar igrejas e pastorea-las. Portando, para que essa tarefa seja realizada o missionário ou pastor deve ter clareza de seu chamado e motivação para realizá-lo.
 
 

Quando nos referimos à questão de motivação, John MacArthur lembra um princípio importante para o exercício do pastorado, encontrado no texto de (Tito 1.6-9);

 
[...] alguém que seja irrepreensível, marido de uma só mulher, que tenha filhos crentes que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados. Porque é indispensável que o bispo seja irrepreensível como despenseiro de Deus, não arrogante, não irascível, não dado ao vinho, nem violento, nem cobiçoso de torpe ganância; antes, hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, que tenha domínio de si, apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem. 
 
Ele destaca que a presença da palavra: “Irrepreensível” não se refere a uma perfeição impecável, pois, neste caso, nenhum ser humano estaria qualificado para o ofício, mas a um padrão elevado e maduro que implica em um exemplo coerente.
Neste sentido, é necessário destacar também a importância do amor a Cristo e às pessoas como pré-requisito fundamental para o exercício do ministério.  Tal caminho deve ser o motivador e sustentador do chamado pastoral. Todavia, nesta parte, apesar dos destaques acima, o objetivo não é estabelecer padrões, e sim discutir a motivação que levam pessoas ao ministério hoje.
John Piper, em seu livro Irmãos, não somos profissionais, mostra que uma parcela considerável dos pastores tem sido pressionada com a idéia de que o ministério pastoral é um emprego como qualquer outro. Como vemos na citação abaixo:
Nós, pastores, estamos sendo massacrados pela profissionalização do ministério pastoral. A mentalidade do profissional não é a mentalidade do profeta. Não é a mentalidade do escravo de Cristo. O profissionalismo não tem nada que ver com a essência e o cerne do ministério cristão. Quanto mais profissionais desejamos ser, mais morte espiritual deixaremos em nosso rastro.
 
A vocação é o caminho que rege as escolhas. Podemos dizer que nossa sociedade visa, acima de tudo, o lucro. As pessoas são valorizadas pelo que possuem, e não pela dignidade de seu caráter. Desta forma, o dinheiro norteia as escolhas profissionais. Quando alguém consegue unir o senso do dever cumprido com o sustento financeiro alcança certa satisfação. Outros são seduzidos pelo status do ministério e da liderança, contudo jamais possuíram o chamado.
Tratando de motivação para o chamado pastoral, o autor Kléos Magalhães Lenz César fala sobre os alicerces inseguros da hereditariedade, a emoção, a manifestação sobrenatural e a desinformação doutrinaria. Para ele, tais motivações são demasiadamente instáveis.
De Pastor a Pastor de Hernandes Dias Lopes e um livro que sempre recomendo para pastores que estão no campo missionário ou no exercício do pastorado. Esta obra discute alguns problemas que podem abalar profundamente aquele que está no ministério e não possui a vocação. Ele menciona problemas como insegurança no ministério, medo de fracasso e indisposição para correr riscos.Também se refere aos que governam o povo com um rigor demasiado, que dominam, usam de autoritarismo e quando são questionados sobre o seu modelo de pastoreio são agressivos. Outros são vitimas e sofrem com este tipo de atitude de seus líderes. Lopes também lembra que alguns estão iludidos com o ministério, entendendo que o exercício da vocação pastoral é uma diversão e não conseguem reagir quando a realidade de lutas, oposições e pressões chegam. Ele menciona problemas crescentes no meio pastoral, tais como, crises conjugais constantes, pastores que vivem em uma contínua correria e deixam de atender os de casa. Jaime Kemp afirma que atualmente existe uma grande porcentagem de pastores em todo mundo que têm sérios problemas familiares.
Lopes ainda defende que um problema recorrente também no meio pastoral moderno é o descontrole financeiro e irresponsabilidade administrativa. Hoje, existem muitos líderes cristãos com pendências financeiras em diversos estabelecimentos e vivendo de aparência, ostentando um padrão de vida acima de suas condições financeiras. Nos casos citados acima é necessário reavaliar o chamado e tratar destas pendências que podem comprometer a eficácia da missão e manchar a imagem do evangelho.
Olhando pela ótica missionária, algo que deve sempre ser feito, percebemos o chamado missionário de Deus é visto em todo o contexto bíblico. Podemos citar a vida de Abraão (Genesis 12. 1 - 3), no caso dele o Senhor o chama e diz que todas as famílias da terra serão abençoadas por seu intermédio. O Apostolo Paulo reconhece que as boas novas da salvação haviam sido anunciadas a Paulo previamente “Ora, a Escritura, prevendo que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou previamente a boa nova a Abraão, dizendo: Em ti serão abençoadas todas as nações (Galatas .8)” 
Jesus mais tarde também afirma “Abraão alegou-se por ver o meu dia, viu e regozijou-se” (João 8. 56).
Pegando como exemplo a história de Abraão podemos lembrar de muitas lições para a nossa missão hoje. Primeiramente é necessário falar que a missão de Deus tem duas dimensões. A primeira está ligada aos dons que o Senhor concede a cada um para um serviço vemos isso em (1 Coríntios 12 e Romanos 12), mas, também existe aquela vocação para o envio exclusivo segundos os ministérios mencionados em (Efésios 4.11). Desta forma é necessário nos lembrar que para o envio missionário depende desse chamado que é divino.
Mas como discernir esse chamado. É preciso estar atento a algumas evidencias que o Espírito Santo da ao missionário. A primeira que entendo que é de grande importância é a convicção dada pelo Espírito Santo a nós. Nós devemos desejar a excelente obra. (1 Timóteo 3.1).  Algo de grande importância é a testificarão da igreja local. A igreja representada pelos membros e liderança deve abençoar o enviado. Recordo-me que em 2008 na época em que ainda estudava no seminário, estava com tudo pronto para uma viagem missionária de curta duração para o Chile. Iria com um grupo de pastores que já possuíam uma igreja plantada naquele lugar e periodicamente iam dar suporte, estava bem animado e acreditava que Deus estava me guiando fazer isso, já possuía o valor da viagem, a documentação estava pronta só precisava que o pastor responsável por me acompanhar me autorizasse faltar um domingo na igreja onde trabalhava. Para minha surpresa a resposta dele foi não, sem me explicar porque disse que não queria que fosse, muitos na época me disseram para eu faltar e pronto, mas entendia que mesmo diante de um não sem justificativa precisava obedecê-lo, naquele ano não fui ao Chile e segui em paz crendo no governo total de Deus nesta situação, pois precisava que minha igreja e pastor estivessem em paz nesta decisão.   
É necessário também que os meios, a providencia divina e o lugar onde a missão vai ser desenvolvida estejam presentes na vida do missionário, que seja alvo de oração seu e de sua família. As qualificações para o exercício do chamado também são fundamentais, o caráter, humildade, piedade e misericórdia são imprescindíveis para a vida daquele que se sente vocacionado. É preciso possuir paixão pelos perdidos, estar sensível a voz de Deus e estar disposto a servir e sofrer em muitos casos.  No caso de missionários possuírem família a preparação para o envio deve ser feita com todos.
 Todo esse processo de compreensão do chamado e preparação para o seu exercício devem ser regados de oração para que Deus nos de a Sua confirmação da vocação. Nunca a vocação e o envio devem ser motivados por prazeres mundanos, aventura, fuga de sua realidade ou por o individuo não achou nada melhor para fazer na vida. Essas motivações podem causar grandes frustrações futuras. O melhor é ir na segurança da direção do Senhor.
 




 


 
BÍBLIA. Português. Bíblia sagradaTradução de João Ferreira de Almeida. 2. ed. revista e atualizada no Brasil. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
MACARTHUR, John. Redescobrindo o ministério pastoral: Moldando o ministério contem-porâneo aos preceitos bíblicoas. Trad: Lucy Yamakami. Rio de Janeiro: CPAD, 1998. P. 110.
PIPER, John. Irmãos, não somos profissionais: Um apelo aos pastores para ter um ministério radical. Trad: Lilian Palhares. São Paulo: Shedd Publicações, 2009. p. 19.
LOPES, Hernandes Dias. De pastor a pastor: princípios para ser um pastor segundo o coração de Deus. São Paulo: Hagnos, 2008. p. 15.
 KEMP, Jaime. Pastores em perigoAjuda para o pastor, esperança para igreja. São Paulo: Hagnos, 2006. p.18.
TOSTES, M. Silas, (org). 2009. p. 94.

Missões Urbanas

Escrito por Fernando Corrêa Pinto                                                                                                                                         Quando praticamos missões urbanas estamos buscando realizar um trabalho desafiador. Tal missão acontece nas cidades e é necessário estratégias bem definidas para a conquiste espiritual das cidades.
É difícil definir com clareza como se caracteriza uma cidade, pois podem se diferir de pais para pais. Entretanto podemos dizer que é uma concentração de pessoas vivendo bem próximas umas das outras, interagindo entre si e debaixo de uma forma de governo.
A missão é para todos, ricos, pobres, civis, militares, jovens e velhos. O serviço de evangelização não é optativo ao cristão. Esse trabalho é feito através de comunicação da boa nova de Jesus através de pregação, entrega de literatura e Bíblias. No novo testamento em momento algum essa tarefa foi questionada.
 Diante do desafio urbano do homem moderno é importantíssimo compreender a práxis missiológica urbana.

A urbanização desenfreada das cidades acontece por conta da grande quantidade de pessoas que saem das áreas rurais para as grandes cidades. Esse fenômeno gera grandes transtornos para as cidades como, violência, desagregação familiar, extrema pobreza, drogas, déficit habitacional, insuficiência do sistema de saúde e educacional.
O desafio da teologia da missão urbana é se conscientizar das demandas das cidades, ver os fatos bíblicos relacionados com essa missão, apreciar métodos evangelísticos adotados hoje e elaborar projetos para evangelizar as cidades.
Alguns fatores ainda agravam esse processo como, a industrialização que está ligada com o surgimento de mega cidades, crescimento populacional, busca de melhores condições, ilusão das mídias que prometem uma vida melhor e a substituição da mão de obra por maquinas o que leva o povo ao desemprego.
O homem urbano também se torna mais complexo. A tendência é se isolar, ficar mais alienado, tender a ser um cristão nominal, relaxar nos padrões morais, ter uma consciência política acentuada e a ser influenciado por grupos de massa.
Daí surge consequências mais graves. Crise familiar, econômica, violência urbana, problemas psicológicos e espirituais.
A igreja é afetada, pois perde a unidade, perde a linguagem comum, entram muitas vezes em um ativismo, medo e inabilidade para testemunhar.
Diante deste desafio é necessário encontrar formas para o avanço missionário neste espaço. É de grande importância que se crie um grupo específico de oração, que haja pequenos grupos, que se distribua literatura, que haja testemunho pessoal e que se aprenda a trabalhar com recurso de mídia, TV, Rádio, Imprensa e internet.
É importantíssimo que a igreja do Senhor não se paralise diante de tantos desafios. É preciso buscar aprender com grupos que trabalhem nesta área e que tenham possibilidade de treinar ministérios de evangelismo das igrejas locais.
 
Estratégias e métodos
 
Destaco também alguns métodos que podem ser utilizados para o evangelismo nas cidades.
Testemunho pessoal é a ferramenta mais utilizada no novo testamento.
Igreja nos lares, essa estratégia é básica no Novo Testamento.
Folheto, esse meio já foi comprovado por milhares de almas que testemunharam ter sido alcançada pela leitura de um folheto.
Evangelizar através de filmes.
Discipulado. O discipulado é um método excelente, utilizado por Jesus e pelos apóstolos. Jesus começa com doze e depois vemos esse numero se multiplicando. Vemos Barnabé discipulando Paulo. Paulo discipulando Timóteo e este discipulou muitos outros. Todo o crente pode e deve ser um discipulador.
Muitas igrejas tem crescido espantosamente com a visão do discipulado este método sendo aplicado do jeito de Jesus pode produzir muitos frutos para o trabalho do Senhor. Ainda podemos dizer que o discipulado proporciona um crescimento quantitativo e qualitativo.
 
Missão urbana da Igreja de Antioquia e Siria
 
Falaremos da missão que parte da igreja de Antioquia da Síria. Esta cidade foi depois da cidade de Jerusalém uma das mais importantes cidades da história da igreja primitiva.
A igreja de Antioquia nasce de uma grande perseguição que surge em Jerusalém. Vemos este fato acontecendo na vida de Estevão que em Atos 11. Ele é apedrejado por causa de seu testemunho de Jesus. Diante disto muitos cristãos saem de sua terra natal. A maioria é disperso para Judéia e Samária até chegar a Antioquia. A igreja de Antioquia era uma igreja multi étnicas (At 13,1). Muitos romanos, gregos, judeus, sírios e outros habitavam ali. Em está comunidade temos a presença de um líder significativo como Barnabé, também de lá o apostolo Paulo e outros saíram para suas viagens missionárias. Esta igreja nos mostra que é preciso superar as barreiras culturais e étnicas. Ela considerava o contexto social de sua época.
            A igreja de Antioquia não tinha conflitos teológicos relacionados com a ação social. Quando o profeta Ágabo previu uma fome a igreja se mobilizou para enviar recursos para os necessitados (At 11,28). Esta igreja se tornou mãe de muitas outras igrejas, era uma igreja que exalava a presença de Jesus e vivia a práxis sacrifical.
            Em resumo a igreja de Antioquia era uma comunidade que tinha sua ênfase no evangelismo, possuía pastores encorajadores, liderança plural, ensino profético, serviço sacrificial, adoração autentica e a sua obra era direcionada pelo Espírito Santo. Este pode ser um modelo para nós hoje.
 
Missiologia uma perspectiva urbana.
 
            Atualmente uma grande proporção da população mundial habita em áreas urbanas, nas ultimas décadas grande foi o numero de pessoas que saíram da zona rural para as cidades. O resultado deste fenômeno como já mencionamos é uma grande desorganização das cidades falta de emprego, aumento das favelas e violência sempre em alta. Precisamos nos lembrar de que Jesus morreu por todos estes e é neste ambiente que temos que atuar como mensageiros do Reino de Deus.
            A missiologia urbana busca estudar com bases nas Escrituras Sagradas, na antropologia, na história e com a pratica missionária nas cidades. Este estudo é desafiador diante dos problemas que já mencionamos acima.
            Na bíblia vemos a ação missionária em diversas cidades como Sodoma, Babilônia, Nínive, Jerusalém, Corinto, Atenas, Roma e muitas outras.
            O ministério de Jesus é repleto de fatos que aconteceram em cidades como: Belém que foi a cidade de seu nascimento, Nazaré cidade onde foi criado, Cafarnaum e Galiléia. Em (Mt 9,35) a Bíblia fala que Ele percorria todas  as cidades pregando o evangelho e curando os enfermos.
            Nos dias de hoje existem muitos desafios que envolvem a forma de viver do homem urbano, contudo não podemos nos amedrontar com tais resistências é preciso avençar a obra de evangelização das cidades com coragem e ousadia.
           
Estratégias de Evangelização Urbana
 
A conversão do individuo é produzida por obra do Espírito Santo e o despertar daqueles que estão mortos espiritualmente vem através da pregação da Palavra de Deus. Desta forma devemos utilizar as infinitas formas de comunicação desta Palavra para alcanças os perdidos.
Neste momento vamos mostrar algumas das mais importantes formar de evangelização das cidades.
Em primeiro lugar é preciso ter uma equipe de intercessão. É preciso lembrar que dependemos do Senhor para que haja conversões. Devemos orar para que as vidas sejam alcançadas.
Em segundo é fundamental que exista o testemunho pessoal é preciso ser sal e luz, viver o que prega. As nossas ações muitas vezes falam mais do que centenas de palavras.
É fundamental que a igreja seja um lugar de pessoas que tenham capacidade de recepcionar bem os visitantes. Todo visitante que foram convidados precisam sentir o amor de Deus no meio do Seu povo.
Outro método estabelecido por Deus para o avanço missionário da igreja é o trabalho dos grupos familiares. O culto familiar promove a comunhão, da abertura para perguntas mais especificas e promove o dialogo entre o povo de Deus. Este método era utilizado na igreja primitiva.
Ter uma equipe de visitação. É importante que a igreja tenha a prática semanalmente de se dirigir a casa de pessoas com hora marcada para que promover o reino de Deus.
Inicio de pontos de pregação ou o plantio de novas igrejas, distribuição de folhetos e a motivação da igreja para a obra evangelística também são fundamentais para o trabalho de expansão do evangelho.
Gostaria neste momento ainda de destacar oito decisões fundamentais para a igreja no contexto urbano.
1 – Fazer uma pesquisa sócia demográfica da localidade da igreja.
 2- Utilizar os leigos para a obra.
3 – Saturar a comunidade com o evangelho.
4 – Sair do prédio e ir para a rua.
5 – Testemunhar de forma integral o evangelho.
6 – Moverem-se em unidade
7 – Não trocar o evangelho da graça por nada.
8 – Executar com seriedade o ide do Senhor.
 
O descumprimento a obra de evangelização caracteriza um ato de desobediência contra Deus. É preciso fazer novos discípulos sempre. Multiplicar a liderança. Ter compromisso e responsabilidade com a Palavra de Deus. Fugir do sincretismo religioso e o relativismo moral.
Em fim é preciso ser resposta para essa sociedade urbana tão necessitada, ser sensível às necessidades da mesma.
Aquele que quer servir na cidade precisa aprender amar a cidade, conhecê-la e ter credibilidade com ela.
Finalizando precisamos buscar em oração a conquista espiritual de nossas cidades. O Diabo vem para roubar, matar e destruir, não podemos deixar de estar atentos às artimanhas do maligno contra nossa igreja e comunidade.
A cura da sociedade através da igreja virá somente quando nos tornarmos intercessores apaixonados e trabalhadores dependentes de Deus.
 
 
 
 
 
Bibliografia
 
BARRS, Jerram, .A essência da Evangelização, Cultura Cristã.
 
Gidlasio Reis, Missiologia uma perspectiva Urbana. monergismo.com

 

Missões e Cultura

 Escrito por Fernando Corrêa Pinto
 
O preparo do coração tem uma importância muito maior do que o preparo do sermão (John Stott)
 
Hoje se fala muito de missões transculturais, ou seja, sair de sua cultura ou país e ir para outra nação para pregar o evangelho. Apesar dos meios de comunicação como internet, televisão e radio ajudarem no trabalho de transmissão do evangelho para muitas nações, sabemos que existem muitos lugares que não possuem tais recursos.

A melhor forma ainda hoje de alcançar alguns povos é através do envio de pessoas. Nesse assunto é necessário fazer uma pergunta. Será que temos preparado bem os nossos missionários para lidar com esse desafio. Falamos de choque cultural, estudo de idiomas, aspectos antropológicos e sociais, mas muitas vezes acredito que precisamos vivenciar a experiência no local. Parece que quando chegamos a outra cultura nos tornamos como criança, precisamos voltar do zero e aprender com o povo para que possamos mais tarde alcança-los. Contudo muitas vezes na pressa de apresentar resultados iniciamos um trabalho precipitado que pode causar resistência  no povo a ser alcançado. É importante sim falar de aspectos antropológicos e culturais, mas é necessário dar uma atenção especial as particularidades de cada cultura.
O que é a antropologia? Respondendo de forma bem simplificada. Digo que é o estudo do ser humano. Estudo de seus comportamentos e suas produções. Existem dois tipos de foco no estudo antropológico. A Antropologia física e a cultural. Na física como o próprio nome já diz refere-se aos aspectos relacionados a genética, medidas e descrições de características física dos povos. Entretanto, atualmente é de grande importância o estudante se ocupar com a investigação da antropologia cultural. Nesta estudamos o folclore, a organização social, costumes, padrão de vida, comportamento; além de comida, organização familiar, crenças, línguas e valores. Também são interrogados porque determinado individuo de uma sociedade age do jeito que age? Quais são as normas que definem o comportamento de um grupo e quais os valores que mantém estes aspectos ainda vivos impedindo que sejam substituídos por outros. Como vemos não basta analisar o tipo de comida ou vestimenta de um grupo, mas é importante se perguntar por que comem isso ou por que se vestem assim? Certa roupa pode falar de classe social ou moda, determinadas comidas podem apontar escassez ou falta de dinheiro. Em nosso país, por exemplo, o que significa usar um anel de brilhante?[1] O que nos fala um homem de terno e carro zero? Essas perguntas devem ser respondidas e colocadas em nossas matérias de estudo.
Ainda podemos nos perguntar, o que é cultura? Para muitas pessoas cultura é o grau de conhecimento que uma pessoa possui. Desta forma, quando se vê uma pessoa simples e rude alguns a definem como alguém desprovido de cultura. Povos indígenas que vivem de com bastante simplicidade recebem o mesmo adjetivo. Contudo, não é desta forma que a antropologia define cultura. Vejamos essa explicação;
Definimos cultura como o conjunto de comportamentos e ideias características de um povo, que se transmite de uma geração a outra e que resulta da socialização e verificadas no decorrer de sua histórias. Com os animais não acontece este aprendizado porque eles se valem apenas de seu instinto natural. Os passaros não precisam aprender a fazer o seu ninho mas o homem precisa aprender a fazer a sua casa.[2]
 
Portanto a cultura é a forma que um grupo determinado age dentro de sua sociedade. Essa forma de agir é aprendida e passada para outras gerações.[3]
Existem ainda outros tipos de culturas que podemos mencionar. Definimos cultura civilizada e cultura primitiva. Esses termos não são usados de forma negativa, mas para que se possa estudar e observar o grau de industrialização de um povo. Por exemplo, na área urbana do Brasil podemos andar em ruas asfaltadas de carro, metrô, comprar comida no mercado, aquecê no micro-ondas, nos casarmos com toda formalidade e etc. Em uma cultura primitiva não existe estas possibilidades, a vida se resume a caçar, pescar, cuidar de crianças e participar de rituais e danças. Todavia, não podemos dizer que uma cultura que residente nos interiores, iletrada ou primitiva que sejam inferior a nossa.[4]  
Acredito na existência de uma grande diversidade de culturas, que para muitos são consideradas inferiores por não ter o nível de industrialização de uma área urbana, mas que são riquíssimas em conhecimento. Tais conhecimentos são adquiridos por indivíduos sem que eles passem por uma escola. Muitos deles vivem bem com sua linguagem, expressões, vida familiar, sem preocupações materiais. Desta forma, acabam vivendo muito melhor que um cidadão urbano em vários aspectos.
 

1.1.1        Animistas

Neste meio podemos encontrar grupos animistas, que são sociedades que tem como ciência a religiosidade. A forma de explicar os fenômenos naturais é atribuída a intervenções sobrenaturais. O sol, terra, rios, cachoeira, animais, vegetais, chuva, vento e todas as atividades que estão relacionados com estes elementos possuem uma intervenção transcendente em suas manifestações.
Dentro destas sociedades é comum encontrar grupos que praticam a magia. São sociedades que valorizam e respeitam demasiadamente estas praticas. O missionário que atua nestes grupos deve ter conhecimento dos conceitos particulares que cercas seus costumes. É comum em meio a essas sociedade atribuir suas curas, propriedades e contribuição favorável da natureza a algum tipo de ritual que chamam de magia branca. Vejamos a citação abaixo;
Como magia branca simples e doméstica podemos exemplificar os Quéchuas que organizam ossos de lhama atrás das portas de suas casas, em ordem e tamanho específicos, a fim de proporcionar abundância naquele lar. Há necessidade de conhecimento específico dos elementos e sua manipulação; conhecimento este passado dos velhos para os novos. Neste caso é uma magia aberta, comunitária, visto que todos podem observá-la, aprendê-la e praticá-la.[5]
Outra categoria conhecida também de magia nestas sociedades é a magia negra.
Negra, temida por trazer destruição e morte. Pode ser praticada pelo homem mágico ou feiticeiro, ou pela categoria rara de bruxo. Normalmente a magia negra é mais especializada e restritiva, sendo que apenas alguns podem aprendê-la ou realizá-la. Em alguns casos pode ser herdada. É aprendida a partir de uma iniciativa pontual, iniciando-se o jovem à arte de tal magia pelo velho, que já a pratica. O bruxo, antropologicamente, usaremos aqui para designar a figura reclusa de um homem, ou mulher, que se aperfeiçoa na arte de dominar, matar ou destruir a partir de atos mágicos ou invocatórios, portanto não se resume apenas à prática mágica. É recorrente a crença de que há uma ligação entre a prática de magia negra e o desenvolvimento de problemas físicos naqueles que a praticam.[6]
É de fato fundamental ter ciencia destes conceitos a fim de elaborar um planejamento para atuação em campos animistas. Ainda existem outras categrorias de magia;
Imitativa, referente a amor e ódio e um exemplo clássico é o wodu que imita o objeto alvo sendo porém bem mais extensa do que percebemos na forma como se tornou mais conhecida. No Haiti a magia imitativa é popularizada através de bonecos feitos e manipulados, com forma das pessoas que desejam atingir. No caso do vodu seria necessário que houvesse algum elemento pertencente a esta pessoa, em um ambiente propício para o ato mágico. E se crê que, havendo semelhança suficiente entre o boneco e a pessoa, dentro de uma manipulação preconcebida e aprendida, os atos realizados com o boneco (manipulação) se refletirão na pessoa que o boneco representa. Uma das suas variáveis seria a imitação de roças, casas, ambientes naturais etc. 
Simpatica, que trata da fertilidade, proteção e paixão. De forma geral pressupõe-se que toda magia é simpática, porém utilizamos aqui o termo para designar as iniciativas mágicas usadas para procriação, proteçào e paixão, como a branca e imitativa mas com a característica de serem atos abertos e não velados, disponível para compra ou prática, de forma simples e comunitária. Está associada a tabus e talismãs e se propõe a controlar o acaso e não produzir um fim específico 
Alegórica, produtoras de ganhos e perdas, com elementos específicos que em determinadas situações podem produzir ganhos e, em sua ausência, prejuízos, como a água benta vendida em algumas igrejas. Assemelha-se à imitativa e a mais forte diferença seria a crença.[7]
 
Dentro destas culturas a comunicação integral do evangelho se torna desafiadora. É importante lembrar que o evangelho não é uma mensagem importada ou negociavel, mas é a comunicação de Deus para a salvação e também tranformação das culturas. O evangelho é integralemte aplicavel as culturas sem que haja necessidade de relações sincreticas.
Dentro dos contexto que afimamos acima é importantissimo que missionário esteja preparado para a atuação sábia em meio as sociedades. Neste ponto é relevante salientar que que o ser humano é o foco da salvação de Deus e não podemos enchergá-los como nossos oponentes.  
[...] pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniquidade nas regiões celestes. (Efésios 6.12) [8]
Após traçar pontos que entendemos ser básicos para o conhecimento do missionário é preciso destacar que receitas prontas para atuação dentro de culturas diferenciadas não se aplicam em muitos casos. Certamente que o aprendizado adquirido em escolas de missões com missionários mais experientes é muito proveitoso. Mas sabemos que os tempos mudam, o espaço geográfico muda, a política muda e até mesmo o contexto religioso pode mudar.
Sou do sudeste brasileiro e meu primeiro desafio missionário foi dentro do próprio sudeste em um estado vizinho. Posso dizer que em muitos aspectos tive choque com a cultura deste estado, mesmo sendo bem próximo. Os costumes eram realmente bem diferentes, foi uma experiência muito desafiadora e um grande aprendizado. Após alguns anos sai do sudeste brasileiro e fui enviado para o nordeste. Mesmo dentro de minha nação e tendo certeza que estaria confortável ali, percebi que estava em outro mundo. Não entendia o que era falado, e tinha dificuldade de me fazer entender, principalmente quando a relação era no interior, zona da mata, agreste e etc. Percebi que precisava me tornar um aprendiz. Com frequência me irritava com a falta de pontualidade, com desorganização da cidade, com o povo de sangue quente. Costumo dizer que este foi o legado deixado por Lampião. Todavia pude ver um povo que mesmo diante de tanta dificuldade e escassez não desanimava. Quantas vezes vi pessoas empurrando carrinhos de caldo de cana em meio ao trânsito durante horas para vender na praia. O caldo de cana é apenas um exemplo poderia falar a mesma coisa da água de coco, do amendoim, das frutas e tantas outras atividades. Um povo que não tem vergonha de trabalhar, que não teme a simplicidade e que é muito acolhedor. Neste momento trabalhando com a missão rural e urbana, com viagens de curta duração para estados vizinhos dentro do próprio Nordeste brasileiro, percebo que o tempo de adaptação, o processo de compreensão da cultura e o respeito com o povo é uma tarefa que demanda tempo. Da mesma forma que tenho uma pequena experiência em culturas diferentes acabo também recebendo muitos grupos de missionários de toda a parte do mundo em nossa comunidade. Vejo muita maturidade em alguns grupos, todavia em outros vejo um completo despreparo, poderia chama-los de turistas evangélicos. Recebo pessoas que nos ajudam muito, trabalham suado na obra e outros que gostam das estatísticas, de voltar para sua terra dizendo que plantou tantas igrejas e que ganhou outras tantas almas. São recebidos em suas comunidades locais como verdadeiros heróis, entretanto nós que permanecemos sabemos que estes relatórios não são precisos. Impactos de uma semana ou até mesmo um mês podem ser muito frutíferos quando existe um preparo adequado para tal função e consolidação imediata para os convertidos.
 

1.1.2        Nômades

 
Falamos um pouco de culturas primitivas mencionando algumas praticas tribais. Neste momento gostaria de focar um pouco em falar de uma parte de grupos nômades. Para atuar em meios a essas culturas precisamos primeiro vencer alguns obstáculos. Vejamos a citação abaixo:
Jesus está entre os nômades antes de nós, esperando por nossas vidas e nossas vozes para manifestar sua presença. As pesquisas mostram que a maioria das pessoas que se tornaram cristãs o fez porque elas conheciam outro cristão. Os nômades precisam de nós para viver como cristãos nômades, no mesmo nível deles, tanto quanto possível. O grande pastor procura por discípulos comprometidos em ajudar os nômades do mundo, aprender o idioma, as habilidades deles e, através de uma experiência de vidas compartilhadas, fazê-lo conhecido. Seu amor precisa ser demonstrado na prática para melhorar o nomadismo do povo — na educação, saúde comunitária, ajuda médica e veterinária e manejo de pasto. Precisamos compreender as práticas religiosas dos nômades, seus temores não esclarecidos e apresentar-lhes o Deus pastor nômade da Bíblia. Nós precisamos demonstrar pelo exemplo que o grande Pastor se sente realmente à vontade nas tendas nômades.[9]
 
É certo que cada cultura tem suas particularidades e que o missionário deve compreender isso para a atuação eficaz em tais movimentos. Entender o mecanismo de vida deles é importante para aprender e ensina-los a viver como cristãos nômades.
Sociedades ciganas nos motivam de forma muito efetiva. Eles possuem costumes muito preciosos para eles, não permitem que grupos de fora se aproximem e em sua maioria só se casam entre eles. Tudo isso para manter suas tradições que são passadas de geração em geração.
O termo "nômade" foi originalmente utilizado tempos atrás somente com os beduínos.  Eles conduziam animais progressivamente para pastos diferentes.  Atualmente “nômade” é um termo usado para se referir a todas as sociedades em que a cultura e estilo de vida estão baseados na necessidade de viajar constantemente para encontrar uma forma de sobrevivência.
No meio dos nômades existem três grupos, os caçadores, os pastoralistas e os itinerantes.
“Os aborígines da Austrália e os bushmen e pigmeus na África são exemplos de caçadores-coletores. Os nômades de barco, como os bajau do sudeste da Ásia e os pescadores boso do rio Níger,”[10] Também são.
Os outros dois grupos são bem semelhantes trabalhando para o seu sustento e em alguns momentos estabelecendo relações comerciais com grupos não nômades. Vejamos o que fala o autor David Phillips sobre os pastoralistas;
A subsistência e a cultura dos pastoralistas nômades são baseadas na criação e busca de pastagem para seus animais domésticos. Os beduínos do Oriente Médio e África do Norte, os samida Escandinávia e os Fulbe da África Ocidental são exemplos de pastoralistas. Os pastoralistas não estão tão diretamente envolvidos com a sociedade como um todo porque os sistemas pastorais podem ser auto-suficientes e seu pasto, muitas vezes, fica distante dos centros populacionais. Por dependerem primariamente dos ecossistemas naturais e só precisar parcialmente de recursos humanos, eles desenvolvem bastante autonomia como sociedades mais fechadas. [11]
E ainda sobre os itinerantes.
Os itinerantes são os artesãos ambulantes, artistas e comerciantes — como os gadulyia lohars da Índia e os ciganos da Europa. Muitos outros nomes foram sugeridos para este grupo diverso, inclusive “nômades comerciais", “viajantes” e até povos "do tipo cigano". Mas itinerantes dá a idéia de movimento para alcançar mercados mais amplos para ocupações que, de outra forma, seriam praticadas a nível local.[12]
O que realmente esses grupos têm de semelhante é a sua vida em movimento. E para trabalhar no seu meio é importante compreender não somente seus costumes e forma de viver, mas também a visão que eles possuem dos povos circunvizinhos e como entendem a modernização. Muitos deles olham para a sociedade externa considerando os mesmos como sedentários, sendo assim, precisam manter distancia para que não haja influencia em seu modo de viver. Neste ponto também entra a visão deles a respeito dos cristãos. Infelizmente eles olham para cristãos como pessoas apegadas a construções e a uma vida sedentária. Esse testemunho tem sido reforçado por parte de missionários que entram em suas culturas, muitas vezes bem intencionados, mas acabam tentando estabelecer formas de fixação de seus trabalhos e normalmente com estruturas e técnicas de cultivo de lavoura e animais. Na visão de muitos não nômades essa vida de permanente mudança e muito desagradável, contudo é necessário remover esses óculos e olhar pelo prisma deles.
O trabalho missionário dentro destes grupos precisa fazer com que eles compreendam que seu estilo de vida não os distancia da graça de Deus. Partilhar inclusive que seu estilo de vida é compatível coma vida cristã. Mostrar que Deus está interessado neles e os ama. Mostrar na própria Bíblia o trabalho de Jesus e dos apóstolos que não possuíam morada fixa e estavam em constante movimento. Mostrar a metáfora do peregrino que se encaixa bem em sua forma de viver, e ainda a visão pastoral que a bíblia aplica didaticamente para transmitir sua mensagem. Os nômades são milhares no mundo todo e se tornam mais um grande desafio para o trabalho desenvolvido pelos missionários.
 

1.1.3        Nossa Janela 10x40

 
O Missionário e escritos Ronaldo Lídório destaca que em nosso país existem grupos de povos não alcançados. Costumo dizer que é a nossa janela 10x40. Segue em ordem estes grupos.
1. Indígenas: 121 tribos sem acesso direto ao evangelho;
 
2.Ribeirinhos: 10.000 comunidades sem igrejas;
 
3.Quilombolas: 2.000 comunidades sem igrejas;
 
4.Ciganos: 700.000 pessoas sem o evangelho e apenas 14 missionários;
 
5.Sertanejos: 2.000 assentamentos sem acesso direto ao evangelho;
 
6.Imigrantes: mais de 100 países representados no Brasil, dos quais 27 deles são fechados ao evangelho;
 
7.Os mais ricos dos ricos e os mais pobres dos pobres: São aqueles que moram em condomínios de luxo e aqueles que moram debaixo da ponte ou nas ruas das grandes cidades.[13]
 
            Interessante o quanto podemos fazer mesmo sem sair de nosso país. Na realidade existem algumas ações para que estes grupos sejam alcançados, todavia não são muitos.
Quando falamos de imigrantes podemos nos fazer uma pergunta: O que temos feito para alcançar esses povos? Recordo-me quando morava em Teresópolis quantas vezes saia de casa para ir comer na pastelaria do Chinês, muitas vezes estive ali sem se quer tentar me comunicar com eles. Sabemos que a China é um país muito fechado ao evangelho e que esses imigrantes costumam retornar periodicamente para sua nação. Imagino o impacto que um chinês convertido poderia fazer em sua pátria. Muitas outras vezes ia a loja daqueles que chamávamos de turcos, que na realidade eram libaneses, sem nunca ter dito a eles que Jesus os amava. Quando morei em São Paulo diversas vezes fui com minha esposa na conhecida Rua 25 de março e no Braz. Aquele lugar é um lugar de missão transcultural. Eram dezenas de chineses, bolivianos, peruanos, árabes, chilenos e muitos japoneses. É um campo muito vasto para a pregação do evangelho.
Quando morei em Recife pude perceber esse campo se expandindo. No nordeste brasileiro temos comunidades ribeirinhas, sertanejos, indígenas, quilombolas, ciganos e certamente pessoas muito pobres e outras muito ricas. Este local é um campo realmente muito fértil. Bem perto de minha casa existe uma comunidade quilombola onde temos fácil acesso para o evangelismo. Nossa igreja se reúne em um bairro bem úmido na cidade de Jaboatão dos Guararapes, uma comunidade muito carente, mas fervorosa na pregação do evangelho. Para chegar até o local é necessário passar por muitas ruas alagadas e cheias de barro. Todavia, vemos pessoas de muitos lugares se converter toda semana. Com frequência saímos promovendo ações evangelísticas nas proximidades. Como se trata de uma comunidade pobre o trabalho de missão urbana com arte e dança tem dado muitos resultados positivos. Pregamos nas praças e nas ruas e promovemos encontros em lugares onde pessoas se drogam e se prostituem. É um trabalho desafiador, mas muito gratificante. Minha meta para os próximos anos é alcançar o sertão, indígenas e quilombolas das redondezas.
Se tratando da pregação do evangelho para os ricos podemos utilizar os recursos da internet, radio e TV para esse fim, todavia sabemos que muito do que tem na midia atualmente é uma verdadeira distorção do evangelho. Missionários da mídia que prometem coisas que não podemos afirmar que Deus prometeu em Sua Palavra. Deus é poderoso para fazer o que Ele quiser, mas pode não fazer também se não quiser. Neste momento lembramos-nos da resposta que ele deu a Paulo em (2 Coríntios 12:7-9)
Para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar.
Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.


  Certamente que Deus não esta preocupado somente com a salvações dos pobres como alguns teólogos da libertação afirmam erroneamente, todavia existe outro extremo da teologia da prosperidade que tem afirmado o contrario. Ambos se atrapalham em suas concepções. Eu prefiro ficar com a palavra de Deus em Mateus 18,14 que diz “Assim, também, não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca.” Em resumo Deus precisa sim de pessoas preparadas para evangelizar aqueles que não estão acessíveis a nós, que moram em condomínios de luxo, saem em seus carros e frequentam lugares que dificilmente poderíamos entrar. Deus precisa de missionários e estratégias para alcançar este povo que é muito carente de ouvir a Palavra que transforma.
Atuar em culturas diferentes realmente é um grande desafio e exige muito empenho, tenho o costume de dizer que nossa primeira missão transcultural começa no casamento, pois duas pessoas que receberam ensinamentos bem diferenciados em suas famílias de origem se juntam para partilhar a vida. Da mesma forma que nos empenhamos em nossas famílias para compreender as diferenças, para amar, para respeitar, pastorear e conviver também devemos olhar para o diferente com o amor de Deus. Quer seja muçulmano, budista ou comunista precisamos do auxílio do Espírito Santo para atuar com sabedoria e amor neste campo. Que Ele possa nos preparar para essa missão possível.




[1]BURNS, Barbara, AZEVEDO, Décio, CARMINATI, Paulo, Costumes e Cultura, Uma introdução à antropologia Missionária,  São Paulo: Vida Nova, 1996. p. 18.
[3] CARSON, D.A, Cristo&Cultura, uma releitura, Trad. Marcio Loureiro Redondo, São Paulo: Vida Nova, 2012. p.13.
[4] BURNS, Barbara, AZEVEDO, Décio, CARMINATI, Paulo, 1996. p. 21.
[5]LINDÓRIO, Ronaldo, Prática de magia em Sociedades animistas, Disponível emhttp://instituto.antropos.com.br/v3/index.php?option=com_content&view=article&id=530&catid=37&Itemid=6 acessado em 22/05/2014
[9] PHILLIPS, David, J, Povos em Movimentos, Introduzindo os nômades no mundo. Ebook, disponível emhttp://www.instituto.antropos.com.br/downloads/ebooks_html/povosemmovimento/ acessado em 13/062014. P 12
 

Missiologia

Por Fernando Corrêa Pinto
 
A missiologia é a ciência que tem o objetivo de estudar a grande comissão dada por Jesus a sua igreja. Essa missão é primeiramente dada a seus discípulos em um âmbito nacional e transcultural. ( Mt 28,19 / Mc 16,15 / At 1,8 ).
Essa disciplina é de grande importância, pois trata de uma tarefa primordial da igreja. Evangelizar os povos. A missão está no coração de Deus e Ele deseja alcançar todas as nações, raças e tribos de todas as línguas. Contudo é necessário saber nestes últimos dias se missões também está no coração do seu povo.
Deus foi o primeiro missionário quando desceu no Jardim do Édem (Gn 1,26-28). Ele cria um relacionamento de amizade com Adão e Eva, contudo após a desobediência deles foi necessário comunicar o evangelho aos povos atingidos por essa maldição (Gn 3,15). Após isso, Jesus cumpre o papel de enviado quando vem a terra cumprir a missão que Deus o deu (Jo 3,15). E o Espírito Santo é o agente desta missão (At 1,8). Desta forma a trindade está completamente comprometida com o Seu plano.
 
Missão na Bíblia.
 
A Bíblia é um livro missionário sem ela não haveria possibilidade de entender a missão e de praticar os seus métodos. (Mc 16,15). A Bíblia é o manual do missionário.
No antigo testamento vemos Deus chamando Abraão e lhe dando uma promessa que muitas famílias da terra seriam abençoadas (Gn 12,3). No Novo testamento, vemos Jesus citando a vida de Abraão e relacionando com a salvação (Mt 8,11-12).
O chamado missionário de Israel inicia através do desafio dado por Deus a Abraão. A promessa de uma terra, de uma benção e de uma família grande. (Gn12, 1-4). Essa promessa vem por meio de Isaque que gera Jacó e a partir dele as 12 tribos são formadas (Gn 32,12).
Muitos imaginam que o chamado missionário não se aplica ao povo de Israel, entretanto podemos ver que Deus separa um povo para trazer o conhecimento do nome de Seu nome a um povo pagão (Gn 12,1-3). Isso se torna claro na história de Jonas, Isaias, Jeremias e outros profetas.
Quando Deus gera Adão Ele ordena que seja fecundo e se multiplique. Adão desobedece e recebe punição por este ato (Gn 1,28). Mas no capitulo 12 Deus da a promessa novamente de abençoar o mundo por intermédio de Abraão.
É preciso olhar para o Antigo testamento com muito zelo e cuidado, considerando-o um livro de profunda importância para o cristianismo e a missão.
O Novo Testamento é do início ao fim um livro missionário. Na grande comissão existem dois aspectos consideráveis a ser falado. O primeiro deles é que existe claramente uma ordem de Jesus para que possamos ir e pregar o evangelho (Mc 16,15).  A promessa consiste e saber que o Senhor Jesus está conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt 28,20).
Em Atos dos apóstolos existe a concretização desta ordem e da promessa que está diante dos leitores desse livro. Vemos Pedro pregando tanto no meio de Judeus e também para os de fora. Em algumas vezes observamos a obra sobrenatural do Espírito Santo participando desta da proclamação (At 10, 9-16). O capítulo 15 deste livro aparece o primeiro concílio. Este tinha o objetivo de organizar a igreja e enviar os missionários para os povos vizinhos.
Em Atos 1,8 está mais uma vez a ordem de Jesus para a proclamação do evangelho. No capítulo 2 a capacitação de Deus para tal obra. Nos capítulos 3 e 4 vemos a igreja passar de 3000 para 5000 salvos. O que se segue do capitulo 5 até o ultimo capítulo de Atos trata-se da ação de Deus na vida de seus servos em prol de alcançar os povos.
Apesar de a maioria dos apóstolos estarem empenhados na missão de Deus evidenciamos que apóstolo Paulo possui um destaque entre eles neste assunto. Em seu histórico temos 4 viagens missionárias que proporcionou que o evangelho viajasse para as nações vizinhas até chegar a Roma. Ele nestas viagens plantava as igrejas, estabelecia a liderança e as pastoreava pessoalmente e através de carta. Paulo Também teve a oportunidade de pregar para as autoridades das nações até terminar preso em Roma por causa do evangelho.
 
 
Missões Transculturais
 
A  missão transcultural trata-se de um movimento cristão de alcance mundial. O lema principal da missão transcultural indica que “A missão primaria das igrejas é proclamar o evangelho de Cristo e implantar novas congregações no mundo inteiro.”
Mas o que é cultura? Para responder essa pergunta temos em primeiro lugar entender o que é a cultura local. Todas as nações têm a sua cultura e é impossível viver acima de sua cultura. Desta forma torna-se desafiador o estudo da cultura.
Cada povo possui valores, crenças e educação particulares e se diferenciam entre si, em alguns aspectos. As culturas têm suas ideias e maneiras de se relacionar com o mundo e os tais são aprendidos normalmente desde a infância. A primeira coisa que um missionário percebe quando chega ao campo é isto. Ao trazerem o ensinamento cristão a um povo o missionário afeta diretamente a cultura. Muitas delas precisam de transformação. Nas culturas em sua grande maioria existem práticas idolátricas, por exemplo, e quando o evangelho de Cristo chega ele produz uma transformação interior e exterior. Ele dá um novo sentido a vida, uma nova direção para as condutas humanas. É necessário que o missionário aprenda a lidar com a cultura, não somente na forma de comer se vestir ou idiomas, mas aprendendo a conviver com seus valores fundamentais de forma que seja eficaz na apresentação do salvador.
O apóstolo Paulo realiza essa obra com grande destreza. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns.” Ele se fazia romano para ganhar os romanos, grego para ganhar os gregos e assim o evangelho ia penetrando nas culturas.
Como a Bíblia olha para as outras culturas? O cristianismo não tem objetivo de padronizar o mundo e nem de destruir a sua cultura. Em (Ap 5,9) vemos o triunfo de Cristo e todas as etnias juntamente com Ele. “E cantavam um cântico novo, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo e nação;”
O cristianismo é transcultural, não há necessidade de destruir nenhuma cultura. É preciso haver respeito pelas mesmas. A questão que deve entrar nesta discussão é se a cultura é ou não pecaminosa e se impede que o individuo seja salvo. Esta sim deve ser transformada. Em (At 15, 19-20) vemos Barnabé sendo tolerante com a cultura judaica que estava ligada com a identidade nacional e não haveria implicações na salvação do povo. “Por isso, julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus,  mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue.”
Se tratando de nossos dias é necessário que cada missionário tenha a responsabilidade de ser enviado de forma correta e se prepare para o serviço transcultural. Alguém que chega a outro país sem as documentações adequadas, de forma clandestina ou sem o envio formal de uma igreja pode correr o risco de escandalizar o evangelho ao invés de trazer as boas novas.
Quando lembramos do exemplo de Paulo percebemos que ele abandona toda sua tradição cultural para trabalhar em favor do evangelho. Em (Fl. 3, 5-8) ele declara que considera o evangelho mais importante que sua identidade cultural. Vemos o apóstolo usando todos os meios lícitos para proclamar o reino de Deus no meio dos pecadores.
 
O desafio da obra missionária Atual
 
Neste momento nos voltaremos para o destaque dos desafios para a realização da obra missionária.
Em primeiro lugar é necessário que haja pessoas dispostas a cumprir o ide. (Jo 9,4)“Importa que façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; vem a noite, quando ninguém pode trabalhar.”
É importante que tenhamos pessoas que amem esse trabalho e o façam com dedicação, pois a evangelização é uma obra urgente. A pergunta que precisamos fazer é a seguinte: Estamos obedecendo a ordem de Jesus em pregar o evangelho?
Outro ponto que destacamos é a necessidade de intercessores para a realização da missão. Em Lucas 10,2 lemos “E dizia-lhes: Na verdade, a seara é grande, mas os trabalhadores são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.”
E ainda é necessário que existam pessoas dispostas a investir financeiramente na missão.“E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um” (At 2,45).
Também hajam missionários preparados e igrejas que se dediquem no envio dos mesmos. Os missionários tem um nome a zelar e precisam estar bem preparados como já havíamos falados, pois a ação evangelística precisa alcançar pessoas e não afastadas do reino de Deus.
 
É importante que o missionário esteja preparado quando vier a perseguição.
“Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (João 16,33)
Tenhamos atenção nos desafios mencionados por Jesus no texto acima. Estes desafios podem surgir no campo missionário e essa é uma arma que satanás usa para que o servo seja intimidado e deixe de proclamar o evangelho. Jesus fala que somos perseguidos porque não somos deste mundo (Jo 15,18). Podemos ver muitos dos apóstolos sofrendo perseguição e alguns deles até sendo mortos por causa do evangelho. Contudo para que haja perseverança é preciso atender ao chamado, se firmar na Palavra de Deus, obedecer, amar as vidas e ter coragem. Um missionário que tem as qualificações necessárias como ser ter bom testemunho, conhecimento bíblico, ser irrepreensível e vive o que prega não deve temer as perseguições.
 
Evangelismo Pessoal no Brasil.
 
 Gostaríamos aqui de falar rapidamente sobre o evangelismo pessoal. O ganhador de almas precisa se dedicar em aprender a melhor forma de evangelismo, sendo assim ressaltaremos alguns pontos importantes.
Em primeiro lugar é necessário ser insistente com amor, entregar um folheto e sair pode não ser a maneira mais eficaz.
Orar para que Deus nos direcione para quem devemos falar.
Decidir a forma de falar, se publicamente, particular, exortando ou com cortesia.
Falar sem pressa de maneira que a pessoa possa compreender bem a mensagem que esta sendo passada.
Mostrar nas escrituras que o homem é pecador e que em Cristo há perdão. A certeza da salvação deve ser incutida.
Falar com convicção e caso a pessoa aceite a mensagem ore para ela entregar a vida para Jesus. Caso ela não entregue proceda de tal forma que a porta permaneça aberta para outra ocasião.
A obra de evangelização no Brasil foi em muitos aspectos formidável e muitos deram suas vidas para que brasileiros pudessem hoje ter sua fé firmada em Cristo.
Se tratando dos pioneiros do evangelismo no Brasil mostraremos de forma cronológica os protagonistas desta obra.
1855 Robert Kalley (Congregacional), 1859 A. G. Simonton (Presbiteriano), 1881 W. B. Bagby (Batista), 1876 J. S. Newman e John J. Ranson (Metodista), 1911 Daneil Berg e Gunnan Vingre (Assembleia de Deus), 1946 Aroldo Edwin (Quadriangular).
Muitos destes foram profundamente influenciados pelos considerados pais das missões modernas como Willian Carey, Hudson Taylor, Adoniran Judson, entre outros.
 
A missão de Deus é Integral
 
Em um texto do pastor Ariovaldo Ramos ele trata sobre a missão integral. Mas o que vem a ser isto?
Ele trabalha o texto de (Gn 3 ,1-15) que relata a queda e suas consequências. Ariovaldo menciona que a missão é de Deus e ele resgata toda a criação. Aqui não é estabelecida uma ordem de prioridades para restauração, mas tudo é priorizado. Deus trabalha dentro da história para resgatar sua criação, nós estamos presos à história, desta forma Deus também trabalha dentro da história para nos resgatar. A nossa participação neste trabalho consiste me clamar “venha o teu reino” trabalhamos para que a transformação venha sobre toda a criação.
Quando o autor fala que a missão é integral existe uma necessidade de entender que toda a criação precisa da cooperação dos filhos de Deus para haja transformação integral.
 
A  Missão
 
O autor Ronaldo Lindório trata deste assunto trabalhando três pontos importantes na missão da Igreja.
O primeiro é que a missão da igreja é proclamar o evangelho, não buscar formas de impactar a sociedade e expandir sua mídia. A igreja precisa perder sua glória para glorificar ao Senhor.
Em apocalipse 5 vemos a tríplice missão de Deus. Iniciando com o trono que está relacionado ao seu Reino. “Ninguém é digno de abrir o livro e desatar os seus selos”. Somente o Cordeiro. Ele tem a primazia.
Em seguida a missão de Cristo está em pagar o preço, quando ele declara “está consumado” isso significa que a obra que Ele deveria cumprir está relacionada com sua morte. Nisto baseia a nossa vitória, pois na cruz que ele obteve sua vitória. Porque ele comprou com Seu sangue homens de toda tribo língua e raça.
A partir do verso 7 vemos a glorificação do cordeiro, “riqueza, sabedoria e força”. Nossa terceira missão é servir ao Cordeiro. Servi-lo com tudo que temos de melhor. Jesus precisa ser conhecido em todos os cantos e nisto consiste o nosso serviço.
Ainda em outro texto chamado a essência da missão Ronaldo Lindório fala sobre o Pacto de Laussane. Este evento foi uma reunião realizada em 1974 com a participação de líderes de 150 países com o objetivo de discutir a missão. Neste evento foi sintetizada a missão da igreja dizendo que o propósito de Deus é oferecer o evangelho a todo, por meio de toda a igreja, a toda criatura, em todo mundo.
A mensagem missional é o evangelho, Jesus o poder de Deus. A necessidade missional é o homem, impiedoso, perverso e perdido. A manifestação missional é Deus convocando todo mundo a crer.
Dentro de uma perspectiva reformada da missão o Rev. Gidálsio Reis faz uma relação entre missão e adoração compreendendo que a obra missionária é a principal tarefa da igreja e uma igreja que não vive a missão não é igreja. Ele menciona o Salmo 67 e a experiência de Isaias (Is, 6) como sendo a experiência de adoração levando a missão. Ele menciona que o culto deve motivar a obra missionária. Finalizando o autor diz, baseado no catecismo de Westminster, que a principal função da igreja é viver para glória de Deus e quando isso acontece a missão se torna algo natural.
O Pr. Osvaldo Prado fala sobre o descompasso de igreja e missão. Ele lembra que a igreja perdeu o fervor missionário e atualmente busca sua alto promoção. Ele questiona se esse grande crescimento da igreja hoje tem gerado missões para fora dos arraiais de Jerusalém. Lembra que existem missionários brasileiros em outras culturas e qual tem sido nosso olhar em relação a eles.
Na realidade, segundo Prado, quando olhamos para a mídia evangélica vemos que temos gerado uma contra missão. Afirma que a igreja tem se mostrado infantil. Ele nos desafia e questionar porque nos mantemos nessas cadeias? São promessas, trocas, pensamento positivo, água benzida, milho ungido, um marido rápido, nesse jogo vale tudo. Há um verdadeiro descompasso com a missão dada por Jesus a igreja.
 
Modismo 
 
Lembrando-se do processo de plantio de igrejas que aconteceu no Brasil motivado pelos movimentos missionários do século 19 vemos que nossa nação anda em outro sentido. A semente plantada com tanto trabalho nesta terra deveria nos dar motivos de sobra para viver para a glória de Deus.
Existe pouca relação de missões hoje com algo que aconteceu a tempos atrás. Um dos motivos está relacionado com os modismos que surgem, que vêm e vão e que agrada a muitos. É preciso perguntar se nossa adoração está nos levando para diante do trono e também para diante dos perdidos?  Se nossas reuniões de igreja tem pensado nos que estão lá fora ou somente cuidando de questões administrativas visando a promoção denominacional.
Nestes casos é importante refletir, orar e nos voltar para os perdidos pelo qual o senhor Jesus deu sua vida.
 
Finalizando este texto destacamos outra mensagem de Ronaldo Lindório que nos leva a refletir sobre a missão da igreja em semear a palavra de Deus. Ele faz uma relação entre a parábola do semeador com o Salmo 126.
Ele lembra que em nossa missão é preciso ir andando e chorando para trazer os seus feixes. Muitas vezes esse choro vem com a saudade dos que ficam, com a enfermidade que vem, com o fruto que não chega, com o caminho que é longo demais e com o coração que, muitas vezes, amanhece apertado. Estamos sempre andando, sendo enviados em caminhos incertos e constantemente orando para dar mais um passo. Realmente o missionário tem um longo caminho a trilhar.
Temos andado e chorado, não sabemos se é hoje, ou se será em breve, ou demorará, mas é certo que um dia traremos nossos feixes para apresentar diante do cordeiro.
Contudo não podemos perder a alegria de caminhar, a fé, a perseverança na oração e o abraço daqueles que estão ao nosso lado, sofrendo e se alegrando com a obra de Deus.
Andar e chorar é cumprir a missão. 
 
Bibliografia
 

             
          Missão integral Ariovaldo Ramos. http://ceifeirosemchamas.net.br/missaointegral.html

 
 
 
 
 
 
 
Bíblia Sagrada JFA RA

 

Evangelização de Grupos Sincretistas

Compreendendo as diferentes fontes religiosas para uma comunicação eficaz

É comum a classificação dos povos e países do mundo em blocos religiosos bem específicos em termos de megareligiões. Assim, classifica-se os povos em cristãos, islâmicos, budistas, hinduístas, animistas e o restante como pertencentes a outras religiões ou religiões minoritárias. A partir desta classificação têm surgido bons textos e treinamentos bem direcionados para quem deseja trabalhar com povos destes contextos religiosos. Não é difícil encontrar bons cursos sobre islamismo e budismo, ou informações, ainda que incipientes, sobre animismo. Entretanto, muitos ainda não se deram conta de que, possivelmente a maioria dos povos ainda carentes de ação missionária, apesar de professarem uma destas megareligiões, possuem uma religiosidade sincretista. Especialmente em povos de cultura menos tradicional, mais aberta a novas formas de resolver problemas e ao intercâmbio lingüístico, aberta a novas expectativas e meios de subsistência, há uma maior abertura também na religiosidade, facilitando assim a mistura religiosa.

O catolicismo popular brasileiro é fortemente influenciado pelo espiritismo, enquanto o animismo de muitos grupos indígenas é influenciado pelo catolicismo e em alguns casos também pelo candomblé. Isto não acontece apenas no Brasil e por isto um missionário que vai trabalhar com muçulmanos precisa estar ciente de que, em algumas regiões a religiosidade islâmica é mesclada com xamanismo, enquanto em outras regiões recebe influência animista. Da mesma forma, quem vai trabalhar com budistas deve estar ciente que em algumas regiões encontrará um sincretismo budista-xintoísta, enquanto em outras a realidade poderá ser um sincretismo budista-confucionista e assim por diante. 

Em contextos assim, não basta ter um bom conhecimento da religião dominante. É preciso fazer uma leitura acurada das diferentes camadas religiosas, detectando os princípios religiosos ativos que influenciam o dia-a-dia do povo. Entre o dogma[1] e a praxe, muitas vezes há uma grande separação. O dogma parte de uma elite pensante, que via de regra pertence à religião oficial ou predominante. Mas a praxe é o que o povo vive, a religiosidade viva, ativa, e que geralmente flui da religião popular. O dogma dá respostas a perguntas, mas a praxe dá soluções aos problemas. No catolicismo popular brasileiro, o dogma diz que Deus é bom e protege aqueles que o buscam, mas a praxe diz que uma ferradura de sete furos protege a casa do mal. No nível do dogma, fazer um sinal-da-cruz em frente ao cemitério é interceder pelas almas dos mortos, mas na praxe é proteger-se contra “assombrações”!

Não basta ter conhecimento dos dogmas, é preciso compreender a praxe também. A falta desta compreensão favorecerá o surgimento de igrejas sincretistas, pois o evangelho pode entrar apenas como mais um princípio religioso.

O QUE É SINCRETISMO?

O termo sincretismo foi usado inicialmente por Plutarco, no século 1, para designar a união das cidades cretenses contra inimigos comuns (no grego syn, “união” + cretismo, “cretenses”). Somente no século 16 a expressão passou a ser relacionada à mistura religiosa. 

Scott Moreau[2], professor de religiões populares no Wheaton College, define sincretismo como uma substituição ou diluição de elementos essenciais do evangelho. Seguindo o seu raciocínio, o conceito pode ser ampliado para substituição ou diluição de elementos essenciais de uma certa religião. Já David Hesselgrave[3] entende sincretismo como uma modificação e adaptação de crenças e práticas de sistemas opostos (ou diferentes) resultando em um novo sistema. Neste caso o termo fica bem restrito, pois nem sempre surge um novo sistema. 

Para fins de convenção, o termo sincretismo será empregado neste texto de forma mais genérica, sendo conceituado como a mistura de princípios religiosos diferentes ou opostos, com a aceitação de todos como verdadeiros, em maior ou menor escala, independente desta mistura se dar em nível de influência apenas ou de uma fusão. Desta perspectiva, é possível perceber sincretismo desde o macro das megareligiões até as suas microdivisões, como no contexto cristão evangélico. Fica claro também que sincretismo não é uma religião, mas sim uma mistura religiosa, da mesma forma que miscigenação é uma mistura racial.

Apesar do uso do termo neste sentido ser relativamente recente, a prática em si é muito antiga. Já no Antigo Testamento encontramos vários exemplos, como o caso dos povos que ocuparam Samaria, em 2 Reis 17.27-33. Cada povo levou para lá seu respectivo deus. Um sacerdote israelita foi enviado para ensiná-los a “servir o deus da terra” e o resultado foi uma religiosidade altamente sincrética. “Adoravam ao Senhor, mas também prestavam culto aos seus próprios deuses, conforme os costumes das nações de onde haviam sido trazidos” (v.33).

No Novo Testamento temos o exemplo clássico do gnosticismo, combatido por vários autores bíblicos, que era um sistema religioso dualista, incorporando elementos dos mistérios orientais, do judaísmo, do cristianismo e dos conceitos filosófico-religiosos dos gregos.

NÍVEIS DE SINCRETISMO

O sincretismo se dá com o contato de dois ou mais sistemas religiosos, podendo acontecer em vários níveis ou graus. Os quatro níveis a seguir destacados, são apenas os principais.

1. Em um primeiro nível, a antiga religião é preservada, mas absorve influências de uma nova religiosidade. Este é o caso, por exemplo, dos Krenak do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Avessos a tudo que vem da sociedade externa, resistiram ferrenhamente ao processo de catequese desenvolvido pelos capuchinhos desde o século 17, bem como, à influência católica da sociedade envolvente ao longo dos anos. 

Em conversas sobre a sua religiosidade, eles são enfáticos em afirmar: “não somos católicos nem protestantes”[4]. Entretanto, é fácil perceber alguns traços do catolicismo na religiosidade Krenak. 

Na dimensão do divino, os Krenak possuem três categorias principais de poderes espirituais:Maréts – significa literalmente “velhos” e trata-se de seres espirituais que habitavam o céu (taru), os grandes ordenadores dos fenômenos da natureza e protetores os índios (burúm); Nanitiongs (ou Nandyóns) – espíritos encantados dos mortos, dignos de veneração; e os Tokóns – espíritos da natureza, mas que também podem manter contato com os xamãs.[5]

Logo, a despeito da influência católica durante séculos, os Krenak mantiveram suas categorias de poderes espirituais, além de lugares sagrados e rituais. Porém, incorporaram categorias católicas ao seu universo espiritual, como santos, a Virgem Maria e a própria pessoa de Cristo. O Ser Supremo dos Krenak é o mesmo Deus dos cristãos que, apesar de ausente no dia-a-dia, foi incorporado no universo religioso indígena. 

2. Em um segundo nível, e possivelmente o mais comum, a nova religião é aceita, mas interpretada pela ótica da antiga religiosidade. Este é o caso dos Caxixó do centro-oeste mineiro. Subjugados pelos colonizadores no século 18, tornaram-se jagunços e posteriormente agregados de fazendas. Proibidos de falar a língua e praticar seus rituais, aos poucos se tornaram católicos, mas interpretam o catolicismo de forma bem peculiar.

Eles usam a Bíblia, celebram missas no vilarejo e participam das programações católicas no povoado mais próximo. Entretanto, preservaram em grande parte a sua cosmovisão animista, praticando ainda antigos rituais de cura e invocação de espíritos. Na dimensão do divino, buscam proteção em Jacy, entidade herdada dos “Carijó”[6], que a identificava com a lua. Temem a Angüera, também herdada dos Carijó, descrita como um ser medonho, de rabo e língua branca. Crêem ainda nos Caboclos D’Água, seres que vivem nas águas do Rio Pará.[7] 

Assim, ao contrário dos Krenak que incorporaram categorias católicas ao seu universo religioso, os Caxixó se tornaram católicos mas incorporaram no catolicismo categorias da sua antiga religiosidade. 

3. Em um terceiro nível, a nova religião é aceita, porém a antiga é preservada sem que haja uma fusão. Hesselgrave[8] prefere classificar este caso como “multireligião”, citando como exemplo os casos do Japão e da China. Para ele, no Japão são praticados o xintoísmo e budismo, com influências do confucionismo e taoísmo. Já na China, essas mesmas religiões se manifestam em áreas específicas da vida. O confucionismo em aspectos intelectuais e éticos; o budismo na filosofia e arte; o taoísmo em aspectos místicos e idealistas.

Apesar de não se fundirem, é inevitável a influência recíproca dessas religiões, portanto, pode-se considerar este fenômeno como sincretismo. 

4. Em um quarto nível, a antiga religião se funde com a(s) nova(s) religiosidade(s), formando um novo sistema religioso. Um caso típico seria os Xacriabá do norte de Minas. Contatados pelos colonizadores ainda no século 17, passaram por um intenso processo de miscigenação com negros, escravos e retirantes baianos. Foram também catequizados pelos capuchinhos e o resultado foi a fusão da sua antiga religiosidade com o candomblé afro-brasileiro e com o catolicismo de tal forma que surgiu um novo sistema religioso. 

A principal entidade Xacriabá é a onça-cabocla Yayá, protetora e orientadora do povo. A segunda é São João dos Índios, que se trata de uma imagem católica esculpida por um indígena e atribuída a São João. Entretanto, o conceito Xacriabá daquela imagem tem pouco a ver com o São João católico, e sim com uma entidade espiritual que protege o povo. O lugar mais sagrado é o terreiro, onde praticam seus rituais. Para entrar ali, os participantes devem estar vestidos de branco e descalços, aos moldes de muitos rituais afro-brasileiros.[9] 

Este caso revela não apenas a influência de uma religião sobre outra, mas a fusão de princípios religiosos ativos diferentes, resultando num terceiro ou quarto elemento. 

CAUSAS DO SINCRETISMO

Em última análise, o sincretismo é fruto do vazio espiritual, do sentimento de que algo está incompleto, ainda por vir. Mas em termos histórico-culturais, pode surgir por várias causas, dais quais serão apontadas aqui apenas as principais.

1. Imposição – Em processos de conquista e dominação política, é historicamente comum a imposição da religião dos dominadores como parte do processo de subjugação. Assim aconteceu na época das conquista de Alexandre, o Grande, quando a religiosidade e mitologia grega foram amplamente difundidas. E o mesmo aconteceu no período das grandes expansões européias, quando a religião dos Estados andava de mãos dadas com os colonizadores. 

Sempre que uma religião é imposta, o povo a assimila superficialmente, no nível das formas, mas no nível dos significados a sua antiga religiosidade permanece viva. A maioria dos indígenas brasileiros passou por este processo de cristianização através da ação dos capuchinhos, jesuítas e salesianos. Tentando livrar os indígenas do genocídio promovido pelo governo e militares, esses religiosos faziam aldeamentos, onde reuniam várias tribos num processo unificado de catequese. Proibiam a prática da religião tradicional e impunham o catolicismo, ao mesmo tempo que proibiam o uso da língua materna e impunham o português. O resultado foi um sincretismo religioso que até hoje influencia não apenas o catolicismo, mas também o evangelicalismo popular. 

2. Intercâmbio religioso – Alguns sistemas religiosos são resistentes ao sincretismo, enquanto outros são mais abertos. Especialmente neste segundo caso, o simples contato com outras práticas religiosas já é suficiente para causar misturas de princípios ativos. As sociedades de cultura menos tradicional estão mais abertas a absorver o que consideram de melhor nas outras religiões. É o caso dos seguimentos religiosos considerados esotéricos. 

Em tempos de globalização, quando o pluralismo e relativismo pós-moderno imperam, cresce a tendência à subjetividade religiosa, onde cada um pratica o que acha melhor. Mas este intercâmbio não é privilégio da pós-modernidade, pois os romanos já praticavam o intercâmbio de deuses, inclusive com povos por eles subjugados. Este também era o principal problema dos Israelitas nos tempos do Antigo Testamento, que com uma facilidade incrível se envolviam na adoração de deuses dos povos vizinhos. 

3. Falhas na comunicação – Pensando mais especificamente no trabalho missionário, as falhas na comunicação podem ser apontadas como as principais causas de sincretismo. A falta de compreensão da cultura e religião local por parte do missionário, resulta numa comunicação truncada do evangelho. A exportação de formas culturais ao invés de princípios bíblicos resulta num evangelho irrelevante para o povo. E uma igreja que surge em situações assim, está apenas a um passo do sincretismo. 

Outra questão crítica é a contextualização. Há um longo debate acerca de sincretismo e contextualização, como sendo coisas muito próximas. O missiólogo neozelandês John Roxborogh faz um interessante questionamento: “se contextualização é apenas um bom sincretismo, então sincretismo é apenas uma contextualização ruim?”[10] E Paul Hiebert[11] faz uma excelente exposição sobre essa questão quanto discorre sobre formas de lidar com o “velho” (tradições, costumes, religião). Para Hiebert, quando o “velho” é simplesmente negado, a contextualização é rejeitada. Isto gera um vácuo cultural que acaba sendo preenchido pela cultura do missionário, resultando em igrejas culturalmente alienadas, imaturas na fé e sincretistas em potencial. Quando o “velho” é simplesmente aceito, acontece uma contextualização acrítica, e isto resulta em sincretismo no grau mais complexo possível. 

LIDANDO COM POVOS SINCRETISTAS

Como evangelizar um povo sincretista, sem que o evangelho se torne apenas mais um elemento religioso? Ou como evitar que o evangelho seja reinterpretado a partir da antiga religiosidade? Não existe resposta simples e não se pode fechar a questão. Em última análise, sem sabedoria do alto e discernimento de Deus é vã qualquer tentativa, mas algumas medidas podem contribuir para o desafio em pauta.

1. Análise fenomenológica – Os estudos de fenomenologia da religião aplicados ao trabalho missionário são relativamente novos no Brasil e por isto ainda não muito evidenciados. No processo de análise de qualquer povo, focaliza-se atenção em três áreas principais: língua, cultura e religião. Na prática são áreas inseparáveis, mas o pesquisador as distingue para fins de análise apenas. Precisa-se então de métodos científicos que sirvam de ferramentas adequadas para a análise. Assim, para o estudo da língua lança-se mão da lingüística antropológica; para estudo da cultura, faze-se uso da antropologia cultural; e a ciência adequada para o estudo da religião, seria a fenomenologia da religião. Logo, a fenomenologia é para a religião, o que a lingüística é para a língua e a antropologia para a cultura. 

Infelizmente, por falta de ênfase no estudo fenomenológico, via de regra tem-se lançado mão da antropologia cultural para o estudo da religião, o que tem dado bons resultados, mas poderiam ser melhores ainda se os recursos da fenomenologia fossem mais explorados.

Com a análise fenomenológica, pode-se levantar de forma bem mais segura as diferentes fontes religiosas presentes na religiosidade local. O que aparece são apenas formas, mas a análise não pode se limitar apenas a elas. É preciso descer ao nível dos significados e descobrir também qual a função social de cada fenômeno religioso. É simplismo concluir que os Xacriabá são católicos pelo simples fato de adorarem a imagem “católica” de São João dos Índios. A análise fenomenológica revelará o que aquela imagem realmente significa para eles. 

Compreender quais são as várias camadas da religião de um povo é de fundamental importância para uma comunicação relevante do evangelho.

2. Teologias de respostas – Esta questão está diretamente ligada ao ponto anterior e foi levantada pela missióloga norte-americana, que por décadas trabalhou no Brasil, Frances Popovich[12]. Para ela, uma abordagem missionária relevante precisa apresentar respostas bíblicas à cultura do povo. Com isto, ela não está sugerindo que os povos não alcançados vivam na dúvida, cheios de perguntas sem respostas. 

“Perguntas”, são os aspectos específicos da cultura que precisam ser bem trabalhados para evitar o sincretismo, enquanto “respostas” são as elaborações bíblico-teológicas que irão de encontro a estas questões culturais específicas. A fenomenologia acha as “perguntas” e a teologia bíblica dá as “respostas”.

Paul Hiebert[13] também aborda esta questão ao discorrer sobre contextualização. A sua proposta é exatamente a elaboração de respostas bíblicas para questões específicas, o que ele chama de “contextualização crítica”. O missionário deve incentivar os convertidos a fazerem uma análise crítica das suas antigas práticas, expor princípios bíblicos que tratem da questão e deixar a própria igreja achar as soluções. 

Para ele, “os novos cristãos podem voltar-se para as religiões populares tradicionais se não lhes forem oferecidas respostas cristãs para os seus problemas diários”[14]. Por exemplo, a igreja que nasce em uma cultura que cultua ancestrais, precisará de uma teologia bíblica sobre espíritos bem específica. Do contrário, os cristãos continuarão cultuando ancestrais, inclusive achando “bases bíblicas” para isto. Ou seja, se a teologia bíblica não der as respostas, a cultura e religião darão, e aí acontecerá o sincretismo.

Vale mencionar que, o principal problema encontrado hoje nesta área é em igrejas já plantadas, que na sua segunda ou terceira geração apresenta traços sincréticos. Nestes casos, a proposta missiológica tem sido exatamente o ensino bíblico com viabilização teológica da liderança local, a partir do desenvolvimento de teologias específicas.

3. Princípio do rompimento – Este princípio é uma sugestão de Alan Tippet[15] e certamente é de grande aplicabilidade em contextos sincretistas. Segundo ele, em grupos assim, faz-se necessário um ato de rompimento com a antiga religiosidade, ou “ritual de separação”, que sirva como recordação de que aquelas antigas crenças e práticas ficaram para traz. É o que aconteceu em Atos 19.19, com alguns convertidos de Éfeso: “Grande número dos que tinham praticado ocultismo reuniram seus livros e os queimaram publicamente”.

Alguns cuidados precisam ser tomados para evitar extremismos. É preciso cuidar para que o rompimento não se torne uma alienação cultural. O convertido não deve romper com toda a sua cultura, muito menos com o seu povo, mas sim com as antigas práticas religiosas contrárias a princípios bíblicos. Outro cuidado a ser tomado é que este rompimento não deve ser imposto ou mesmo proposto pelo missionário. Deve acontecer por iniciativa dos próprios convertidos. O importante é que haja um marco que lembre a mudança de vida. O batismo, por exemplo, pode ser um momento ideal para a prática deste princípio.

Portanto, frente à desafiadora realidade sincretista que permeia tantas religiões, o missionário deve estar sempre atento a esta questão. As possibilidades de surgimento de igrejas sincretistas são grandes e por isto medidas devem ser tomadas para evitar tal fenômeno. Pesquisas mais abrangentes sobre sincretismo seriam de grande contribuição para o crescente contingente missionário. Temas como este, deveriam estar presentes em todos os currículos de formação missionária, especialmente vinculados aos estudos da fenomenologia da religião.
 


[1] Dogma neste contexto, não tem nada a ver com a imposição de uma suposta verdade, defendida pelo clero de um determinado seguimento religioso. Antes, é termo da fenomenologia da religião que indica a sistematização doutrinária das crenças de determinada religião. É a sistematização reflexiva, na maioria das vezes literária, do símbolo, do mito e do rito.
[3] A Comunicação Transcultural do Evangelho. p.301.
[4] Em entrevista pessoal com Ailton Krenak, um dos principais líderes do grupo, no dia 07/05/02.
[5] Cácio Silva. Minas Indígena. pp.82,83.
[6] No século 18, o termo “Carijó” era usado para designar todo indígena escravo. É neste sentido que o termo é usado aqui, e não como o povo indígena Carijó. 
[7] Cácio Silva. Minas Indígenas. pp.138-140.
[8] A Comunicação Transcultural do Evangelho. pp.303-304.
[9] Idem, pp.48-51. Informações mais extensas sobre os oito grupos indígenas de Minas Gerais, estão disponíveis no site www.caciosilva.com.br
[11] O Evangelho e a Diversidade das Culturas. pp.171-186.
[12] Fenomenologia da Religião. pp.9,10.
[13] O Evangelho e a Diversidade das Culturas. pp.186-187.
[14] Idem. pp.224.
[15] Un Análisis del Movimiento Cristiano Mundial. pp.54.
 


Acesso em: 24 fevereiro 2005.
SILVA, Cácio Evangelista da. Minas Indígena: Levantamento Sociocultural e Possibilidades de Abordagens Missionárias nos Grupos Indígenas de Minas Gerais. Viçosa: CEM, 2002 (dissertação de mestrado não publicada).
TIPPET, Alan. Un Análisis del Movimiento Cristiano Mundial. In: LEWIS, Jonatán. Mision Mundical – La Dimensión Estratégica. Oregon: CBF, 1986.
http://roxborogh.com/syncretism.htm>.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HESSELGRAVE, David J.AComunicação Transcultural do Evangelho. Vl. 2. Comunicação, Cosmovisões e ComportamentoSão Paulo: Vida Nova, 1995.
HIEBERT, Paul G. O Evangelho e a Diversidade das Culturas: Um Guia de Antropologia MissionáriaSão Paulo: Vida Nova, 2001.
MOREAU, A. Scott. Syncretism. Disponível em: <
http://www.wheaton.edu/intr/Moreau/ courses/565/articles/Syncretism.htm>. Acesso em: 18 fevereiro 2005.
POPOVICH, Frances Block. Fenomenologia da Religião.Viçosa: CEM, s/d. (apostila não publicada). 
ROXBOROGH, John. SyncretismDisponível em: <
Última atualização em Ter, 31 de Março de 2009 18:02

 

fonte http://www.instituto.antropos.com.br/v3/index.php?option=com_content&view=article&id=555&catid=38&Itemid=5